A Antônia ficava no portão. Foi a única forma que achei de me sentir protegida. Sempre me considerei uma caçadora de tesouros e, claro, agora na velhice não seria diferente.
Antônia estava lá para proteger meus bens.
Desde jovem, eu tenho esse dom de perceber itens preciosos no meio de pilhas e mais pilhas de coisas que ninguém quer. Eu nunca entendi como pessoas se desfaziam de tesouros assim tão fácil. Ainda bem que na minha casa tem espaço para todos eles.
Sempre que alguém precisa de qualquer coisa, sei que podem encontrar na minha casa, sinto que isso me aproxima dos conhecidos. Eu estou sempre ali, pronta para ajudar.
Mas nem sempre quero entregar os tesouros para alguém que não vai nem ligar para eles. Às vezes minto. Digo que não tenho, que a Antônia já levou.
Eles não sabem que chamo de Antônia aqueles olhos que vigiam meu portão. Eles dizem sentir medo dos olhos. Se tivesse corpo, talvez não daria tanto medo.
Mamãe dizia que era por isso que ninguém se aproximava de mim. Dizia que me achavam meio “pirada da cabeça”, palavras dela.
“Geralda, você sempre será sozinha. Você e suas coisas. “
Que Deus a tenha. Dizem que morreu de infecção. Algo sobre “negligência de cuidados", nunca entendi o que queriam dizer. Sempre cuidei muito bem de mamãe. Ela era quase como Antônia, era uma guardiã dos meus bens. Quando ela precisou vir morar comigo, montei sua cabeça bem em cima dos tesouros. Ela parecia aqueles dragões de conto de fadas poderosos que vemos nos filmes de princesa.
Ela não saía da cama para nada. Acho que gostava demais dos tesouros também. Não saía nem para fazer suas necessidades. Era uma excelente guardiã.
Chorei muito no dia em que ela se foi. A partir dali, seria apenas Antônia e eu.
Alguns dias depois que mamãe se foi, tomei seu lugar sobre os tesouros e nunca mais sai.
O InvenTramas começou sem querer. Com histórias do meu dia a dia, da minha vida, de coisas que observo. Não sei se vocês já tentaram se colocar no lugar de outra pessoa e escrever sob esse lugar e esse olhar. Mas é um exercício que muitas vezes me conecta com o outro, ora trazendo paz, ora trazendo uma enxurrada de sentimentos.
Quando, em uma volta de carro no meio de São Paulo, me deparei com um portão de uma casa cheia de caixas e com uma cabeça de manequim pendurada em uma das lanças do portão, a história veio de dentro de mim de uma vez.
Espero que esses pequenos fragmentos da vida conversem com vocês tanto quanto conversam comigo.
Por hoje é isso,
Até a próxima pausa.
Bianca
