10 dez 2025

Qual a relação entre a cultura da alta produtividade e um palhaço

Pouca pessoas sabem, mas durante minha graduação em medicina atuei em uma ONG chamada Sorrir é Viver que com certeza era um dos lugares mais divertidos que eu frequentava na época. Nessa ONG, tínhamos um treinamento durante um ano inteiro, o curso de formação, para sermos palhaços (clown), musicantes ou contadores de histórias especializados em visitar hospitais e ambulatórios e, depois disso, atuávamos nesses papéis durante os próximos 3 ou 4 anos de faculdade pelo menos 1x na semana.

Tenho certeza que esses anos de treinamento e atuação me fizeram ser a médica que sou hoje. Depois de alguns anos sem levar meu nariz vermelho para passear por aí, me peguei pensando na Ella, a minha palhaça e, de repente, saiu um texto.

Deixo ele aqui para a pausa de hoje:

Trabalhe x horas por dia,

se exercite com frequência,

cuide da casa, cuide da família,

tenha uma vida saudável,

estudo muito, ganhe dinheiro,

leia, mantenha-se informado sobre o mundo,

saia com os amigos, seja espiritualizado, seja calmo,

tenha um hobby,

seja feliz…

Todos já ouvimos cobranças semelhantes em algum lugar.

Como se fôssemos marionetes, essas cobranças nos fazem pular de atividade em atividade sem ao menos nos questionar o motivo.

O mundo nos cobra produção constante, atenção constante, aprendizado constante… trazendo sempre o “seu eu não fizer, o outro se sairá melhor do que eu", seguido de “eu vi na rede social que fulano consegue fazer tudo isso e é feliz".

Sempre a competitividade, a comparação, a “vida corrida".

Mas…

Será que isso é saudável?

Será que esse comportamento tão elogiado no mundo corporativo é sustentável?

Será que o que vemos nas redes sociais é mesmo real?

Esses dias me peguei enroscada em todas essas cordas da sociedade moderna. Com vários nós daqueles que parecem incrivelmente difíceis de serem desfeitos.

Daqueles nós que nos obrigam (finalmente) a parar e refletir.

Quem criou essas cobranças?

O que faz delas verdadeiras?

Por que devemos seguir o que falam?

Se deu certo para um, vai dar certo para todos?

Cadê os ensinamentos de como manter a saúde mental no meio de tudo isso?

Foi no meio de tantas reflexões que encontrei uma velha conhecida.

Ella era a clown que eu levava toda semana para o hospital, que me fazia vestir a menor máscara do mundo e fazer o que fosse possível para tentar aliviar o sofrimento do outro.

Era ela (ou Ella?) que me mostrava que havia graça em falhar, em cair e que, em cada canto daquele hospital, era possível achar formas de se divertir.

E foi exatamente esse o conselho que ela me deu:

Divirta-se. Encontre a SUA diversão em cada momento. Se você souber fazer isso, aí sim poderá ser tudo o que você quiser !

Repare que é “tudo o que VOCÊ quiser” e não o que os outros exigem de você, o que os outros dizem ser o certo.

Cada um tem um ritmo, uma vida, uma história e muitas vezes esquecemos disso e simplesmente tentamos repetir padrões e buscar fórmulas mágicas para o sucesso sem nem saber o porquê fazemos o que fazemos, só nos cobrando para fazer, fazer e fazer.

Um dia a conta chega e é essencial ter alguém que nos mostre que as cordas simplesmente não existem, que não somos marionetes flutuando no meio da vida e o que realmente importa é se divertir.

A vida é curta demais para se encaixar na expectativa dos outros.

Seja você, se respeite, saiba que descansar também faz parte do processo.

Não existe isso de viver 100% em alta produtividade.

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_toques do cotidiano

  1. Esse podcast que fala sobre o poder do palhaço como ferramenta de autoconhecimento com Renato Stefani e Marcio Ballas

  2. Eu participei do meu primeiro podcast no mês passado junto com as minhas irmãs (e sócias) falando sobre a nossa descoberta na carreira médica e também como mulheres empreendedoras

  3. O mashup mais incrível que você vai ver de Flowers da Miley Cyrus com When I was your man do Bruno Mars

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Por hoje é isso,

Até a próxima pausa.

Bianca