Acho que estou em um momento da vida que tomei a liberdade chamar “de volta às coisas mesmas”. Parece bem fenomenológico, eu sei, mas acho que eu diria que é mais analógico.
Desde que voltei do meu intercâmbio na Inglaterra, me percebo aplicando mais o conceito de “slow living”. Eu sei, um termo em inglês que parece tirado diretamente de um vídeo aesthetic do youtube, meio faria limer misturado com bobeira hippie de europeu. Mas não é o que parece (ou talvez você até veja assim, mas, fazer o que, somos diferentes hahaha).
Desde lá, tenho sentido uma vontade muito grande de papel, lápis, caneta, lápis de cor, caderno… (inclusive esse texto foi originalmente escrito com papel e lápis). Percebo esse mesmo movimento na minha forma de me exercitar. Buscar o "simples”, nada de pesos e máquinas estranhos e localizados que pouco acrescentam na força de movimento que preciso no dia-a-dia. Quero aprender meu corpo, saber do que ele é capaz de fazer sozinho, seja nos exercícios corporais, seja no processo de criatividade.
Não quero uma máquina para me ajudar. Não quero uma IA para facilitar o processo. Isso parece mesmo tão errado hoje em dia? (deixo aqui um texto que li semana passada discutindo sobre isso).
Processos facilitados não ensinam, não geram desconforto e, consequentemente não geram crescimento e nem aprendizado.
É preciso ter dificuldades para crescer e se desenvolver. É preciso saber e aprender sobre cada parte do processo para chegar em algum lugar. Não adianta clicar 1-2-3 vezes e pronto, problema resolvido. Se for algo com impacto na sua vida, as dificuldades pelo caminho valem cada segundo do seu esforço.
Confesso que para mim é difícil desacelerar, ficar menos tempo em telas, assistir à menos vídeos no youtube, usar menos instagram… mas sinto que é o que meu corpo e minha mente, cansados de serem bombardeados de informações (falsas), pedem agora.
Para. Respira. Aprende de você para você primeiro. Se for consumir, consuma com INTENÇÃO.
Sim, mais um conceito tirado diretamente da fenomenologia. “voltar as coisas mesmas", “corporeidade” e “intencionalidade". É engraçado como sempre que estudamos filosofia começamos a ver a vida real fazendo sentido com esses conceitos. Como se alguém tivesse nomeado coisas que a gente só conhece porque experiencia, mas nunca prestou tanta atenção.
Para mim, juntar tudo isso é justamente poder tornar minhas ações mais intencionais, ou seja, com mais propósito e permitir meu corpo sentir o que deve fazer, permitindo que a vida toda seja um pouco mais leve, menos rígida e controladora.
Nosso corpo é capaz de fazer inúmeras coisas ‘sozinho', sem depender de hacks ou criações tecnológicas mirabolantes e caras. É esse o simples movimento do criar.
Explorar isso tem me trazido liberdade. Sinto que as telas, o excesso de informação que eu não quero/preciso ver naquele momento me colocam em uma espécie de prisão mental. Parece que minha mente só consome e não produz ou, quando produz, faz igual todo o resto das pessoas. Obesidade mental, é como chamam.
É libertador poder voltar a praticar ser quem eu sou, voltar ao simples, ao eu-comigo-mesma, encontrar minha criança interior e me permitir fazer atividades da forma que essa eu-mais-jovem já gostava desde muito cedo. Para mim, essa é a maior e melhor forma de (auto)conexão.
Esses dias, durante uma conversa, comentei que parecia que aprendíamos a ser adultos errado. A sociedade nos ensina que o adulto é um ser que deixou de ser criança e não deveria ser assim. O adulto deveria ser apenas a criança, só que com algumas responsabilidades e não deveria esquecer e/ou abandonar a criança que ele já foi um dia.
Isso me lembrou do que li no livro da Rosa Montero. Ao refletir seu próprio processo de escrita, Rosa percebe temas recorrentes como a presença de anões ou seres pequenos nas suas narrativas e, ao estudar como as histórias são meios de acessar nosso inconsciente, começou a se questionar o que esses seres representavam para ela. No entendimento dela, os “anões” de alguma forma representavam justamente esse limbo entre ser adulto (maduro, com responsabilidades) e a criança, um adulto borrado, que engana as barreiras do que é ser adulto e retorna, de certa forma, aos pensamentos, sensações e ausência de julgamento que uma criança costuma apresentar.
Achei genial. E concordo. Claro, sem querer dizer que isso se reflete em quem realmente tem nanismo. Aqui estamos falando do inconsciente da escritora e o que essa figura significa ao aparecer em sua mente e a partir de suas vivências.
É a mesma coisa que Magritte quis dizer quando fez o famoso quadro: se eu falar sobre charutos, ninguém irá imaginar o mesmo charuto e nem mesmo evocar as mesmas lembranças que um charuto pode trazer.
Enfim, acho que divaguei bastante por aqui.
A ideia era refletir sobre a (minha) vida e, quem sabe, encorajar outras pessoas a refletirem sobre as suas também. Então termino com uma pergunta:
O lugar que você está hoje ou a pessoa que você é hoje deixaria o seu eu criança orgulhoso?
Se sim, em quais sentidos?
Se não, o que poderia mudar?
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Por hoje é isso,
Até a próxima pausa.
Bianca
