Não sei onde estou. Pelo menos não me abandonaram. Mas poderiam ter me deixado em casa, seria muito mais confortável.
A Atina está aqui. Ela depende de mim. Sempre foi a mais grudada. Nunca achei que fosse sair de casa. Ainda bem que não saiu.
Mas às vezes ela coloca um quadro preto na minha frente e me diz para responder o que falam no quadro. Nem sempre entendo o que é esperado, mas repito o que ela fala “mãe, eles estão perguntando se está tudo bem. Mostra que hoje você fez as unhas e que escolheu a cor sozinha". Eu tinha feito as unhas? Não sei. Mas mostro mesmo assim, confio nela.
Dizem que hoje é meu aniversário. Não parece. Eu poderia pelo menos estar em casa. Cadê o bolo? E a festa?
Ai ! Alguém me bateu !
Disseram que fui eu mesma, mas acho que eu saberia. Só porque estou velha às vezes me tratam como inválida.
Ai! De novo !
Que gente sem educação. O Angelo poderia ter me deixado em um lugar melhor. Ouvi eles falando que estou em casa, mas é mentira.
Estou molhada.
Uma voz que não conheço aparece "Dona Alzira, vamos trocar a fralda?"
Não. Não sou um bebê. Não uso fralda. Eu sei quando preciso ir ao banheiro e definitivamente não é agora.
Esse lugar é muito escuro. Não consigo ver essas que se dizem enfermeiras. Consigo reconhecer a família apenas pela voz. Eles poderiam me levar para casa. Não gosto do escuro.
Ai ! Outro tapa. Dessa vez no rosto.
Não aguento mais. Por que a Atina não faz nada?
Saudades do Augusto. Ele jamais me deixaria aqui. Se ele ainda estivesse aqui… Foi tão difícil quando ele se foi. Nada mais teve graça. Ele era bom de me fazer rir. Agora, nem isso eu consigo. Já faz muito tempo. Não sei quanto.
Estou cansada. Não aguento mais. Me dizem que vai melhorar, mas o que vai melhorar?
Me trazem comida. Cheira bem. Não sei dizer o que é. Mas também não tenho fome. Para que comer?
“Engole, Dona Alzira, cuidado para não engasgar !”
Ninguém ouve quando digo que não quero.
“Muito bem, agora mais um !”
Mais um o que? Já foi algum?
Só quero descansar. Falam comigo como se eu tivesse 3 anos de novo.
O que aconteceu?
