15 out 2025

"Você só pode estar louca !!"

Eu sei. Quantas vezes já não ouvimos frases como essa. Como se “estar louca” fosse uma grande ofensa.

Nunca ouvi ninguém dizer “Você só pode estar hipertenso !” para alguém com os nervos à flor da pele. Nem “Você só pode estar diabético !” para alguém que não conseguia parar de comer doces.

Mas, é claro, os termos da psiquiatria viram xingamentos num piscar de olhos, seja no relacionamento tóxico, seja no bullying da escola, seja na reunião familiar.

“Minha ex é louca ! "

“Não vamos brincar com ele porque ele é meio esquisito, vai que pega."

“Ta assim por que? Parou os remédios?”

Não sei vocês, mas toda vez que eu escuto algo assim eu me pego refletindo, fico imaginando se na verdade não é o sujeito que proferiu a frase que está doente e nem sabe. Por que a saúde mental dos outros é sempre tão atacada? Será que estão olhando com cuidado para a própria?

Que a psiquiatria tem uma história de estigma muito antiga todo mundo que já leu Machado de Assis sabe. Mas, o que talvez não esteja claro, é que, mesmo após 143 anos (!!!!) da publicação do Alienista, ainda vivemos em uma espécie de Casa Verde.

Só que, ao invés de reunir os alienados em uma espécie de prisão física, o que acontece hoje me parece ainda mais cruel.

Os discursos jocosos que permeia muitas das conversas sobre saúde mental me soam como paredes invisíveis e imperceptíveis. Paredes que geram medos e inseguranças.

O medo do julgamento, medo de ser chamado de "louco", medo "d'O Psiquiatra". Como se “O Psiquiatra” fosse uma espécie de Mr Hyde preparado para fazer maldades. E, muitas vezes, essa “maldade” que enxergam é apenas de outras pessoas saberem que o sujeito esteve em consulta.

E isso é tão arraigado na cultura que esses mesmos sujeitos que sabem que necessitam de ajuda, não param de sabotar o próprio autocuidado. Se magoam quando ouvem frases como as acima. Se magoam por não quererem se identificar como “um paciente psiquiátrico” e isso, meu amigo, é o que tem de mais cruel.

Eles evitam passar em consulta até não aguentarem mais seus sofrimentos, evitam retornos conforme a sugestão médica e evitam se conectar com seus próprio sofrimento por medo do julgamento alheio (e muitas vezes do próprio).

Ninguém quer ser “um paciente psiquiátrico” e lidar com o próprio bem estar, mas está tudo bem ir ao cirurgião plástico ou dermatologista e arrancar ou modificar pedaços do próprio corpo por pura estética?

Que sociedade doente é essa que vivemos?

Queria poder gritar para todos os ventos possíveis: Psiquiatra é um médico como outro qualquer. PARE de jogar o seus julgamentos e inseguranças em cima de pessoas que precisam de cuidado. Não afaste as pessoas de um tratamento digno. Isso é muito século passado.

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Até a próxima pausa.

Bianca