Geralmente, essa é a primeira pergunta que recebo quando conto para alguém que sou psiquiatra. E, por mais repetitiva que a pergunta seja, eu sempre me pego refletindo sobre a resposta.
É claro que eu fico triste ao ouvir meus pacientes contando sobre suas dores mais profundas, mas de alguma forma eu também fico feliz. E, talvez isso possa soar bem contraditório ou até mesmo rude.
Mas eu vou explicar.
Diante de algumas histórias, a tristeza do paciente se torna palpável, eu a sinto porque ela faz sentido dentro de mim também. É isso o que eu chamo de empatia.
Mas, quando eu paro para refletir sobre o contexto em que o paciente me contou uma história, me sinto feliz por poder proporcionar um espaço de escuta seguro, feliz por ser um ponto de confiança no qual ele pode depositar suas histórias mais difíceis, quando muitas vezes ele nem sabia que um ponto de apoio assim existia. Me sinto feliz por ele ter sido capaz de vir até mim, se mostrar vulnerável e procurar ajuda, mesmo quando tudo na vida dele mostrava que ele não deveria confiar em ninguém.
E quando as pessoas me fazem essa pergunta, o que elas na verdade querem saber é como essa tristeza não se propaga para o restante da minha vida.
A verdade é que tem dias que ela gruda em tudo mesmo. Tem dias que eu chego do trabalho exausta, esgotada e nada parece no lugar. A casa não parece tão aconchegante, o banho não é tão relaxante, o jantar não tem gosto algum. E é nesse momento que uma voz bem baixinha vem lá de dentro e me diz “essas dores não são suas, você não precisa carregá-las, sua missão é ajudar a curá-las” e é nesse momento que eu paro, respiro fundo, fecho os olhos e deixo meu corpo se soltar e, como se fosse mágica, a minha casa volta a ser lar outra vez.
É preciso lembrar o tempo todo que antes de médica, eu sou um ser humano. Um ser humano com vida, com rotinas, com cargas emocionais próprias. Sentir a dor do outro não me torna mais fraca, me humaniza. Aprender a não carregar aquilo que não me pertence faz parte da minha jornada.
